Nesta sexta 16/10/2009 passei a ocupar a Cadeira nro.13 Patrono José de Alencar, e nesta oportunidade apresentei o seguinte relato:
JOSÉ DE ALENCAR Escritor: 1829 - 1877
ACADEMIA PETROPOLITANA DE LETRAS
(Walter Leonardo Berner , outubro 2009)
Ilustríssimo Senhor Presidente desta Academia, Prof. Joaquim Eloy dos Santos; mui dignas autoridades,Dr. Fernando da Costa; estimados confrades acadêmicos; minha querida esposa, querida família; amigas e amigos.
A surpresa foi por deveras comovente, quando soube que fui eleito para dar seguimento às atribuições da Cadeira de nro 13, de tão nobre Patrono, o Escritor Dr. José de Alencar. Este cearense, da cidade de Mecejana, que ao primeiro dia de maio de 1829 veio para esta vida que somente Deus concede.
Isto mesmo. Nasceu então aquele que um dia viria a ser o grande e ilustre homem das letras. Mas foi nordestino só por nascença, porquanto sua família se transfere para o Rio de Janeiro no ano seguinte ao seu nascimento, por conta das funções de Senador ocupadas por seu pai José de Alencar. E é nesta cidade maravilhosa que o jovem José faz carreira na Faculdade de Direito, pelos anos de 1846.
No primeiro ano universitário o eminente escritor, esboça seu primeiro romance “Os contrabandistas”.
Foram vários os artigos e folhetins que assinou, como “Ao correr da Pena”; “Cinco minutos” e outros tantos. Sua primeira paixão é Chiquinha Nogueira, no ano de 1854. E como se diz: “Paixão é o esteio da emoção” (grifo meu), este ilustre escritor, advogado e pensador humano, brasileiro inquieto, se consagra como romancista a partir de “A Viuvinha”. E não para mais. Em 1857 escreve o belo trabalho “O Guarani” e lança-se como autor teatral com “Verso e Reverso”; o drama “Mãe” e outros mais. A caminhada é intensa, e surge o romance “Lucíola”.
Em 1864 o seu coração é conquistado por Georgina Cochrane que vem a ser sua esposa, com quem teve filhos.
Incansável, e certamente envolvido com toda a situação política de época, José de Alencar, agora já nacionalmente reconhecido, e internacionalmente projetado, especialmente em Portugal, escreve, escreve e escreve... Ah! Sim, a bela “Iracema” que vem a ser junto com “O Guarani”, a representação do nosso verdadeiro Brasil. O Belo na beleza do verde e do amarelo.
Tanto é que o Compositor Carlos Gomes compõe a Ópera “O Guarani”, uma das grandes pérolas da Arte Clássica Brasileira.
E Machado de Assis, escreve no Diário do Rio de Janeiro, aludindo-se a “Iracema”:
"Tal é o livro do Sr. José de Alencar, fruto do estudo e da meditação, escrito com sentimento e consciência… Há de viver este livro, tem em si as forças que resistem ao tempo, e dão plena fiança do futuro… Espera-se dele outros poemas em prosa. Poema lhe chamamos a este, sem curar de saber se é antes uma lenda, se um romance: o futuro chamar-lhe-á obra-prima”.
Certamente que o tempo o confirmou.
Obras-primas foram compostas através de releituras, estudos e grandes obras de arte.
Para nós Artistas Plásticos, eruditos e clássicos, sem apologia, e sem desrespeito aos colegas de vanguarda, um trecho de “Iracema” é por demais descritivo para uma tela bem colorida e bem elaborada.
Diz este verso:
“Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira./ O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado./ Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. / O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas”.
O belo poema que descreve o inusitado encontro “luso-brasileiro” não pára aí. É por demais completo e de uma descrição tão detalhada e perfeita, que é ousadia incontrolável do mais experiente Artista Plástico, tentar com suas fartas pinceladas registrá-lo sobre uma tela branca. Não, não creio que seja de todo impossível, isto porque nas artes ( refiro-me a todas elas ) prevalecem os sentimentos puros da alma, portanto são imensuráveis os seus recursos de comunicação. Mas certamente o Poeta José de Alencar, soube com imensa propriedade e luminosidade, ser este grande Artista das palavras e descrever através delas, bem ordenadas, todo seu sensível e inquieto sentimento com o que até hoje, felizmente, podemos nos deleitar.
A saúde o traiu... No ano de 1876, vende todos os seus bens e vai a Europa com sua família, a tentar se restabelecer da gravidade que o acometia. Visita ainda Inglaterra, França e Portugal, e retorna antecipadamente ao Brasil, ainda mais debilitado, quando se despede deste mundo a 12 de dezembro de 1877, no Rio de Janeiro.
Somos todos órfãos e herdeiros saudosos deste ilustre Patrono, que se não do mundo, é para o Brasil a fonte inspiradora e alicerce da Literatura Brasileira.
DR JOÃO FRANCISCO
Pois então, esta Casa, a ACADEMIA PETROPOLITANA DE LETRAS, desde sua fundação, a 3 de agosto de 1922, acolhe em seus acentos, em seus braços, um grande número de personalidades ilustres, desde seus Patronos até os Acadêmicos de cada Cadeira.
Sim, são vidas consagradas e vocacionadas por Deus que deixam em suas caminhadas neste mundo, para todos nós, suas bagagens culturais e sapienciais de valor imensurável.
Não me é lícito e muito menos conveniente no momento, citar todos os nomes que integram o quadro Acadêmico desta Casa, seus quarenta patronos e sucessivos Acadêmicos.
Mas como o mais recente representante da Cadeira 13, Patrono (patronímico) José de Alencar, não poderia deixar de enfocar, com toda humildade e reverência, o meu antecessor, o Desembargador Prof. Dr. João Francisco. E se no mais profundo respeito o faço, deixo registrado de público, minha perene admiração por esta pessoa que marcou história neste vasto e querido Brasil, em especial aqui em solo petropolitano. Assim é com este brasileiro, que em nossas vidas, especialmente nas áreas jurídicas, nos faz herdeiros de seus preciosos conhecimentos, como exemplar pai de família, amigo, cidadão brasileiro, professor, Jurista e escritor. E sempre acolhedor. Compôs o quadro de várias Academias, da OAB, do Instituto Histórico. Este ilustre Desembargador permanece em nossas lembranças, e faço uso das palavras do Dr. Fernando Costa, quando acentua: “ninguém morre enquanto permanece vivo em nossos corações”. E é exatamente esta “memória viva” que nos firma na caminhada da vida, não com ar saudosista, mas com uma bagagem bem consolidada nas vidas que, neste mundo, deixaram uma herança cultural e sapiencial inigualável.
Não me sinto suficientemente capacitado para em pouco tempo e com poucas palavras descrever uma vida tão preciosa como a do Dr. João Francisco.
Meus contatos com este cidadão não foram dos mais próximos. Lembro-me de suas presenças em exposições de Arte em que fiz parte. Lembro-me daquele “personagem ilustre” a caminhar pelas ruas petropolitanas.
Registro contudo meu apreço e admiração por este cidadão que nesta casa teve acento.
WALTER L BERNER
Sim, a vida nos traz surpresas que não sabemos quantificar, muito menos qualificar.
Mas de certa feita, num destes momentos diferentes no curso da vida, me confrontei com a costumeira pergunta: “porque isto agora justo comigo?”
De pronto, à luz de minha fé cristã, reverti esta dúvida em outra pergunta:
“Para que Deus me colocou este desafio exatamente agora em minha vida?”
Esta pergunta, tão sutil está em meu coração também hoje, diante do convite desta Academia. Vejo no gesto destes Confrades Acadêmicos, um desafio para o qual peço a Deus as devidas forças para em humildade e simplicidade, emprestar à Sociedade Petropolitana, o pouco da bagagem que esta vida me permitiu acumular.
São 65 invernos, pois nasci em junho... dos quais 35 de caminhada tecnológica e empresarial, em paralelo com 45 anos de caminhada artística, que me permitiram somar muitas amizades e muita troca de experiências, contabilizando esta dita “bagagem de vida”, que não quer ser pesada, mas bastante farta.
Fato é que sou ansioso em compartilhar tudo o que Deus me confia e coloca no coração, e constantemente me lembro das palavras de um consagrado Artista Plástico: “Não desprezo nada... Meus trapos, meus velhos e desgastados pincéis, os apontamentos e toscos desenhos... Tudo enfim os guardo, porque são as marcas das pegadas de Cristo em minha vida”.
Ambos, o Patrono José de Alencar e o Acadêmico Dr. João Francisco, certamente acumularam estas “marcas de Cristo” em suas vidas e as transformaram em preciosas letras ordenadas.
As palavras são letras que o poeta usa para exprimir seu pensamento. O artista pode usá-las e abrilhantar seu pensamento na tela. Contudo, todas as pessoas, sem exceção, criaturas divinas, podem ser apenas uma gotinha na imensidão do oceano, mas sem a soma destas gotinhas, não haveria navegação.
Assim posto, saúdo e abraço a todas e todos que aqui presentes ou distantes, me alimentam desta “sabedoria do viver”.
A vocês meus agradecimentos e carinhoso abraço.
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