Quem sou eu?
Todos os seres humanos estão em constante questionamento quanto às suas origens, quer do ponto de vista étnico, social, político e até econômico. Mas certamente a busca mais intrigante e incessante é a resposta à sua identidade como “ser”, a sua constituição e estrutura espiritual.
Certamente que diante desta pergunta milenar, qualquer pessoa se ancorará em sua “crença” básica, isto é, buscará encontrar a resposta mais convincente, se isto é possível, nas “bases” da sua formação cultural e conceitual.
Para o cristão não é diferente.
O cristão temente ao Criador, certamente buscará encontrar sua resposta nos fundamentos de sua fé.
Portanto, se assim é, torna-se imprescindível em primeiro lugar, reconhecer esta “fonte”, qual seja, o Credo Apostólico, ou Niceno, que é professado ao longo destes dois mil anos do cristianismo.
Em que e em quem crê o cristão:
Credo Apostólico
"Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu Filho Unigênito, nosso Senhor, o qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao mundo dos mortos, ressuscitou no terceiro dia, subiu ao céu e está sentado a direita de Deus Pai, Todo-Poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos. Creio no Espirito Santo, na santa Igreja cristã, a comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição do corpo e na vida eterna. Amém."
Credo Apostólico Ecumênico
Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor,que foi concebido pelo poder do Espírito Santo. Nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado. Desceu à mansão dos mortos. Ressuscitou ao terceiro dia. Subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Universal, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressureição do corpo, na vida eterna. Amém.
Credo Niceno Constantinopolitano
Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Cremos em um só Senhor: Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não feito; consubstancial com o Pai, por quem todas as coisas foram feitas; que, por nós e por nossa salvação, desceu dos céus, e se encarnou, por obra do Espírito Santo, da virgem Maria, e se fez homem. Foi tambem crucificado, sob o poder de Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu aos céus, e está sentado à direita do Pai. Virá outra vez com glória para julgar os vivos e os mortos, e o seu Reino não terá fim.
Cremos no Espírito Santo, o Senhor que dá vida, e procede do Pai e do Filho; que, com o Pai e o Filho, é juntamente adorado e glorificado; Ele, que falou pelos profetas.
E cremos na Igreja una, santa, universal e apostólica. Reconhecemos um só Batismo para remissão dos pecados. E esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. Amém.
Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, criador do céu e da terra:
A partir desta “profissão de fé” certamente cristã, fixar-se na primeira frase, encerra o pilar central da origem da vida vegetal, animal e humana.
Em Gênesis (primeiro Livro da Bíblia), do capítulo um, até o capítulo dois, encontra-se a completa descrição desta magnitude criadora do Universo. Não há como desconsiderar a Divindade de um Criador, para entender-se a origem da Vida em todas as suas dimensões e substâncias.
Destaca-se o capítulo um, verso 27: (Gn 1,26-30)
Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e segundo nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos e todos os animais selvagens e todos os répteis que se arrastam sobre a terra”. Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea ele os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei e subjugai a terra! Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre tudo que vive e se move sobre a terra”. Deus disse: “Eis que vos dou toda erva de semente, que existe sobre toda a face da terra, e toda árvore que produz fruto com semente, para vos servirem de alimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu e a todos os seres vivos que rastejam sobre a terra, eu lhes dou todos os vegetais para alimento”. E assim se fez.
No cap. 2, vs.24, (Gn 2,24) entende-se a continuidade da vida, pela união do masculino com o feminino:
Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher e se tornarão uma só carne.
A partir destas duas fontes, destas duas “origens”, estruturam-se, mesmo que para alguns de forma “metafórica”, a concepção primária do homem (“adamah”), a partir do pó (Gn 2,7).
Assim, em seguimento a esta concepção, como que em um “desdobramento”, Deus criou a mulher (“evah”).
Fato é que a ambos Deus os criou de um mínimo pó e soprou-lhes a Vida, (Ruah) (confira em Gn 2,7).
Da união homem-mulher, a partir de minúsculas células, surge a nova criatura e esta recebe o “sopro da vida”, a vida por excelência, por obra divina com o sopro do Espírito Santo.
Nasce um novo “ser”.
Quem sou eu? Diante destas colocações pode-se organizar uma primeira estrutura, ou primeira resposta:
O ser humano é em sua origem, fruto da concepção de um homem com uma mulher, e recebe de Deus o “sopro da vida” através do Espírito Santo. (Gn 2,7) Este mesmo Deus é Senhor da Vida e da morte (1 Sm 2,6). “Sou portanto criatura de Deus”.
A partir daí, este novo “ser” inicia uma caminhada de vida que está diretamente atrelada ao meio em que nasceu: família, comunidade, sociedade, país... Portanto cresce e se forma. Cria sua estrutura, conceitos de vida, cultura e conhecimentos, desenvolvendo uma personalidade única e completa.
Neste sentido encontra-se em Provérbios 22, 1 e seguintes, sábias palavras de Salomão, entre muitas que proferiu, para esta “formação de identidade”; contudo destaca-se o verso 6. (Pv 22,6):
“Ensina a criança o caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele”.
Esta preocupação, de importância ímpar, é reforçada por Pitágoras (570 a.C.) quando diz:
“Eduquem-se os meninos e não será preciso castigar os homens”.
Esta educação, enquanto cristã, está baseada na Sagrada Escritura, como se constata em 2Tm 3, 16:
“Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na Justiça”.
Portanto, busca-se os parâmetros referenciais para educação e diretrizes da vida, na Bíblia, seus preciosos ensinamentos e nos Dez Mandamentos, (Ex 20).
Estrutura-se e enriquece-se a Alma. Portanto, forma-se a identidade do “ser”, e este “ser” estará sempre se alimentado de espiritualidade e fundamentos que sustentam a sua fé, como sabiamente diz Sto Agostinho:
“A alma se alimenta daquilo que a alegra”.
Quem sou eu? A partir deste enfoque, o cristão haverá de reconhecer que sua identidade é sustentada na fé corroborada nos ensinamentos divinos e doutrinários (preferencialmente com clareza e sem fundamentalismo), e assim confessará tranqüilamente: “Sou cristão temente a Deus e a Ele fiel”.
Estrutura-se então sua “origem”, sua “formação” e, portanto “sua personalidade cristã”.
Como se isto não bastasse, a pessoa para solidificar sua existência, ou melhor dito, perseverar em sua “identidade”, carece de manter-se em constante comunhão com toda a cristandade ao seu redor, sem contudo esquivar-se do convívio social, político, cultural e econômico; enfim, sem a exclusão do convívio saudável e completo , sem o isolamento doloso.
Esta convivência social e comunitária promove ao cristão toda liberdade consciente.
Confira em 1 Co 10,14 a 28, especialmente o verso 23, onde se lê:
“Todas as cousas são lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam”.
Assim, o cristão na certeza de sua conduta, declara: “Sou cristão livre e liberto para a vida”.
A consciência do “ser cristão” se consolida na aceitação teológica não apologética e não fundamentalista, da verdade espiritual que o liga ao Eterno, ao Divino. Daí “religare” que é a raiz de “religião”.
E para o cristão, a base fundamental é Jesus, sua vida, morte e ressurreição, ou seja: a teologia da Cruz, da Páscoa e de Pentecostes. O tempo da Quaresma em plenitude.
Esta estrutura consciente remete a uma questão fundamental:
“Aonde o cristão encontra Deus, e qual a sua relação responsável com o Criador?”.
Deus é Pai misericordioso e não distante como protagonizam alguns. Deus é “onipresente” na vida daquelas pessoas que permitem a Sua majestosa presença e Dele aceitam os passos e diretrizes para suas vidas.
Diz o ditado: “o homem põe, mas Deus dispõe”. Ou ainda: (Pv 16,9) “O coração do homem traça o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos” Esta é uma realidade essencial na vida cristã.
Pois bem, a “morada de Deus” é exclusivamente “dentro da pessoa”.
Confira Lc 17,20-21:
Interrogado pelos fariseus, quando chegaria o reino de Deus, Jesus respondeu-lhes: “O reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer ‘está aqui’ou ‘está ali’, porque o reino de Deus está dentro de vós”.
Confira também 1 Co 3,16-17:
Não sabeis que sois templo de Deus e o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém profanar o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós.
Esta preciosa constatação permite ao cristão temente a Deus, um permanente diálogo e uma vida serena, confiante de que é “membro do Corpo de Cristo”, disposto à partilha e comunhão, disposto ao serviço e à vida perene e sublime:
Rm 12, 1-6:
Nova vida em Cristo. Eu vos exorto, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, que vos ofereçais em vossos corpos, como hóstia viva, santa, agradável a Deus. Este é o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com os esquemas deste mundo mas transformai-vos pela renovação do espírito, para que possais conhecer qual é a vontade de Deus, boa, agradável e perfeita.
Pela graça, que me foi dada, recomendo a todos e a cada um de não fazer de si próprio um conceito maior do que convém, mas um conceito modesto, de acordo com a medida da fé que Deus lhe concedeu. Pois assim como num só corpo temos muitos membros e cada um de nossos membros possui diferente função, assim também nós, sendo muitos, somos um só corpo em Cristo mas cada membro está a serviço dos outros membros. Destarte todos nós temos dons diferentes segundo a graça que nos foi dada, seja a profecia, segundo a proporção da fé...
Afinal...
“Quem sou eu”?
“Sou cristão, criatura de Deus, a Ele fiel e temente, portanto livre e liberto para a vida, absolutamente consciente de minha fragilidade pecaminosa, a serviço da vida sem constrangimento, para a plenitude da comunhão e partilha em comunidade, na certeza de que dentro de mim, no meu ser, habita Deus o misericordioso Pai, pela doação e pelo testemunho de Seu Filho Jesus, na força do Espírito Santo”.
(Ef 4,4-7) Sede um só corpo e um só espírito, assim como foi chamada por vossa vocação para uma só esperança. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, por todos e em todos. Mas a cada um de nós foi dada a graça segundo o dom de Cristo.
A virtude em viver a vida que Deus nos confiou é saber administrá-la na certeza do amor divino e compartilhar este amor com todos que conosco a estão convivendo.(W.L.Berner)
Fontes:
Bíblia Sagrada / Vozes 32a. Edição;
Bíblia Sagrada / Soc. Bíblica do Brasil Edição Revista e Atualizada;
Citação de Sto Agostinho;