sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Herdeiros de Deus - Um repensar o novo ano

HERDEIROS DE DEUS. Gálatas 4,4-7 - Um repensar o novo ano
“Mas quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e foi submetido a uma Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção. E, como prova de serdes filhos, Deus enviou a nossos corações o Espírito de seu Filho que clama: “Abba, Pai!” De maneira que já não és escravo mas filho, e, se filho, herdeiro por Deus”.
Passou Natal. Acabamos de comemorar e lembrar a história mais ouvida e vivida em toda a humanidade. O Nascimento de Cristo.
Certamente nós já assistimos esta história das mais diferentes maneiras e muitas vezes. Em seguimento a esta época tão santa, vamos caminhando para um tempo de acertos, como muitos querem, ou fazem, quando desejam encerrar o seu ano com “chaves de ouro”.
Correm contra o tempo para deixar a casa em ordem. Certamente que são bastante convenientes estes ajustes no tempo. Ajustes até na própria vida, a partir daquilo que se viveu, a partir daquelas experiências que o passado nos faz guardar na memória.
Este texto destaca vários enfoques para nos facilitar a organizar os pensamentos. Começa com a seguinte colocação:
“Mas quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher...”
Que plenitude dos tempos é esta? Sim, para que possamos entender esta “plenitude”, precisamos situar-nos na época de Paulo, quando ele escreveu esta carta aos Gálatas.
Os gálatas são celtas de origem indo-ariana, que três séculos antes de Cristo invadiram a região do baixo Danúbio e da Macedônia. Portanto eram bastante guerreiros e nômades. Por volta de 25 antes de Cristo, seu rei Amintas deixa seu reinado em favor dos romanos. Estes, os romanos, por sua vez criam a província da Galácia.
Bem depois, após Cristo, Paulo visita esta província por duas vezes com certa dificuldade devido a sua saúde, razão também porque não seguiu em sua viagem missionária. Mesmo assim, Paulo pregava o Evangelho sem cessar.
O clima reinante não era dos mais agradáveis e o conflito, diria ideológico, entre os pagãos convertidos e os judaizantes (judeus cristãos) era acirrado, pois os ditos judaizantes eram contrários a pregação livre do Evangelho, segundo Paulo recomendava. Tudo girava em torno de uma disputa persistente e teimosa em que alguns fundamentalistas achavam que a Lei era soberana, enquanto os seguidores do Cristo, assim como Paulo, defendiam o Evangelho como sendo o centro norteador. Neste clima de conflitos ideológicos, Paulo esclarece a principal razão da vinda de Jesus para a humanidade. Diz o texto a esta altura: “...foi submetido a uma Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção...”
O próprio Deus, feito homem, através de uma mulher, se submete ao jugo da Lei, tão defendida pelo povo, como vimos, para consagrar-nos como seus co-herdeiros através de seu Filho, Jesus Cristo.
Não posso dizer o que Deus pensou e quis com aquela tomada de decisão. Isto seria muita presunção humana. Mas certamente podemos imaginar, segundo as palavras de Paulo, o quanto Deus ama suas criaturas, a ponto de até aceitar tais condições e Se oferecer ao jugo, e até a morte na cruz.
Outro destaque se dá quando Paulo escreve: “E, como prova de serdes filhos, Deus enviou a nossos corações o Espírito de seu Filho que clama: ‘Abba, Pai!’”.
Pessoalmente entendo que exatamente na constatação deste texto se encerra toda a mensagem salvífica. Somos agraciados por Deus com o Espírito de Jesus. Refletir sobre este presente tão significativo, nos faz rever o Natal com outros olhos: Deus não só nos presenteou simplesmente com o nascimento de uma criança em total humildade, mas faz com que nós reflitamos sobre o verdadeiro significado de Pentecostes, quando nos concede o Espírito Santo. Jesus nasceu em humildade total, assim também viveu para trazer a Glória do Pai, e ainda nos legar Seu Santo Espírito para sermos “co-herdeiros da Graça”.
Isto é demais. Demais para nós que somos pecadores teimosos. Demais para nós que gritamos ‘Glória a Deus’, e ao mesmo tempo nos envolvemos com imparcialidades, intolerâncias e as teimosias da vida.
Deus nos permite, através de Seu amado Filho, invocá-Lo de forma tão paterna e simples, quando podemos apenas dizer: “Abba Pai, ...aqui estou, pecador e carente de Tua misericórdia”. Sem alardes... Como o publicano que bateu em seu peito externando total humildade e submissão.
O texto em apreço encerra com outra grande colocação que diz assim: “De maneira que já não és escravo mas filho, e, se filho, herdeiro por Deus”. Estar sob o jugo da lei é algo que nos prende e nos priva da liberdade de viver. Tudo está sob a condição da lei humana, mas para muitos falta uma lei que diz: “faça-se cumprir a lei”. Regras e condições; sinais vermelhos para uns, e verdes para outros. Quanta lei para que o ser humano respeite os direitos e deveres do próximo, e saiba coordenar os seus próprios direitos e deveres.
Jesus simplifica tudo isto, quando nos mostra a única lei que Ele promulgou. Jesus diz que não veio para mudar as leis dos Profetas (Mt 5, 17) quando diz: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas completar”, mas para mostrar a lei maior, como escreve Paulo aos Coríntios (1Co 13,13): “...o maior é o amor”.
Pois é exatamente esta a tônica central: o simples fato de podermos nos considerar “filhos co-herdeiros”. Tendo em mente a lei maior que é o amor, podemos aí sim, rever todo o ano que está no final, e tentar reorganizar nossas vidas para um novo “ser”, uma nova criatura, com a Graça de Deus.
Dr Walter Altmann (IECLB) formula questões desafiadoras quando nos propõe algumas perguntas, como: “Queremos propor alguma ação especial em conjunto? Na expectativa de nossa ação em algum projeto comunitário”.
Esta colocação básica é complementada com mais alguns desafios, que bem poderemos rever e começar a agir.
Isto mesmo, agir, planejando esta nova jornada que antes aventamos. Observar atentamente o apelo:
“Deus em tua graça, transforma o mundo”. Sim, que possamos orar e pedir a Deus que nossa ação, e nosso engajamento possa reverter este quadro tão crítico da sociedade em que estamos inseridos, para uma situação no mínimo mais sustentável.
Não podemos corrigir o mundo, mas cada ação solidária de cada pessoa, quer individualmente ou em grupo, pode realmente transpor montanhas, e tornar as coisas mais fáceis. Podemos buscar nossos irmãos e irmãs que se encontram afastados; podemos encontrar pessoas que necessitem nossa aproximação espiritual e fraterna. Isto em linhas gerais quer dizer: encontrar as pessoas idosas, os doentes, os carentes, os portadores de algum mal, enfim emprestar nosso ombro amigo e trazer para a Casa de Deus este irmão que clama por liberdade espiritual.
Não precisamos de grandes alardes, basta-nos a ação solidária e colocar mãos à obra. Isto se chama engajamento. O mundo clama por justiça e paz. Deus em Sua misericordiosa graça vai transformar este mundo, basta que cada um de nós faça a sua parte e com muita fé cresçamos na comunhão.
Aceitar este desafio proposto carece que façamos uma profunda revisão de cada ano que se encerra e também do que propomos para o ano que se inicia.
Rever nosso passado e as coisas que realizamos requer muita sinceridade ao expormos este “relatório” para Deus, e para nós mesmos. Sim sinceridade sem alardes...
No silêncio de nossa intimidade é quando mais facilmente nos podemos achegar a Deus e simplesmente dizer: Abba Pai, tem compaixão de mim, tem misericórdia deste seu filho, em nome de Teu Filho amado Jesus. Sim, querido Deus: faça de nós instrumentos de sua vontade para a transformação do mundo mesmo que seja apenas este meu mundinho.
Louvar a Deus e conversar com Deus, não precisa de grandes aparatos nem tão pouco apresentações vultosas, exibicionistas e barulhentas, como um fariseu. Basta sinceridade e humildade, como o publicano, e ter consciência deste magnífico presente que nós, sim, nós ganhamos aos pés da manjedoura: A fraternidade no amor de Jesus, o Emanuel que por nós veio e por nós se deu na cruz, e que a todo momento nos faz compreender o significado de doar-se em comunhão fraterna.

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