"A Arte é Verdade"
"Nós sabemos agora que a arte não é a verdade. A arte é uma mentira que permite que nos aproximemos da verdade, ao menos da verdade que podemos discernir. 0 artista deve surpreender a maneira de convencer o público da inteira veracidade de suas mentiras (...) A obra exprime, freqüentemente, mais do que almejava o desejo do autor: ele fica muitas vezes perplexo com os resultados que não havia previsto. 0 nascimento de uma obra é às vezes uma espécie de geração espontânea. Ora o desenho penetra o objeto, ora a cor sugere as formas que determinam o sujeito, não há arte no passado nem no futuro. A arte que não é do presente jamais será arte".(Pablo Picasso)
Sem dúvida que este pensamento de um grande Artista como Picasso merece todo respeito e admiração. Não ousaria contestar ou muito menos fazer apologia a respeito desta manifestação. Contudo, não me sinto à vontade nem plenamente contemplado em apenas apreciar estas palavras sem ao menos conferir uma reflexão análoga que, como disse, sem apologia, expresse uma posição não fundamentalista, mas à luz do entendimento da "comunicação através da Arte".
Comunicar-se através da arte é um privilégio daquele que se encoraja na prática ou na vontade de externar seus sentimentos para que seja visto, ou ouvido, ou até sentido.
Assim, na medida de um entendimento de que "a Arte é comunicação", não consigo conceber que seja "uma mentira" salvo se o referido comunicador não esteja consciente do conteúdo de sua mensagem. Convém certamente repensar esta afirmação, e dialogar mais nos meios artísticos sobre o grau de responsabilidade que cada um tem diante deste "dom da comunicação" através dos meios plásticos.
A certeza de que Picasso estava plenamente consciente do conteúdo de suas mensagens, não se questiona, basta ver Guernica (1937). Seria esta obra uma "mentira"? E o que falar (pintar / escrever...) sobre Os pobres à beira mar (1903) de sua fase azul... "Mentira"?
O seu próprio pensamento "...não há arte no passado nem no futuro. A Arte que não é do presente jamais será arte", sugere com plena energia que "Arte é a verdade pura do Criador através das mãos do artista". Caso seja contrário, então o "próprio presente é uma mentira".
Toda Arte, por mais significativa ou mais singela, (basta ver a caminhada artística de Picasso desde o academicismo (prefiro a palavra "figurativismo"), até expressões mais contemporâneas (prefiro mais a palavra "abstracionismo")), sempre comunica a verdade do artista, seus sentimentos; suas angústias e alegrias; enfim "as suas verdades". Mentira é expressar uma inverdade; arte é expressar a verdade.
Assim como os olhos, as mãos transmitem os intentos da alma. Expressam através de um simples gestual o que realmente a alma está sentindo. Expressam a dualidade da pessoa
Muitos artistas, descomprometidos com a responsabilidade da comunicação plástica, se ancoram no devaneio da irresponsabilidade comunicativa, e entregam-se ao "absoluto caos infundado". E porque? Porque exatamente imaginam "fazer arte pelo gozo, pelo prazer do consumismo e satisfação da libido, ou ainda, o que é mais preocupante: fazer arte para nada". Disse certa vez um artista (belas Artes UFRJ): "faço a arte que me satisfaça já; não faço arte para os olhos alheios, não me preocupo com as convenções e normas da comunicação plástica. Faço arte aqui e agora, sem mais delongas". Esta seria uma "mentira", no verdadeiro sentido de arte, por vez que não faz sentido nem para a própria vida deste indivíduo...
Há de se entender que a expressão de Picasso vai no sentido de que a pintura é uma "inverdade" na medida em que "o gestual do artista" não seria autêntico com os parâmetros das convenções antropológicas.
Se olharmos o quadro "Evocação – o enterro de Casagemas" de Picasso / 1901, poderíamos dizer que esta pintura é uma "mentira", por vez que "foge aos padrões humanos". Mas em arte, sim, insisto: em arte, é a mais pura expressão de uma verdade.
Lembro-me de uma estória atribuída a Picasso em sua fase azul: teria ele pintado uma figura de mulher totalmente monocromática...(bela obra). Uma Senhora que visitava a exposição reclamou com Picasso: "mas Senhor! Uma mulher azul? Onde já se viu tal absurdo?". Ao que respondeu Picasso: "respeitosa Senhora. Isto que a Senhora vê, não é uma 'mulher azul', é apenas uma 'obra de arte'...".
Onde está a inverdade? Na "obra de arte", ou na desinformação artística do/a espectador/a?
Como entender uma obra de arte (diferente de uma pintura medíocre), sem conhecer o conteúdo desta obra, sua comunicação e principalmente "a verdade do Artista" (a verdade do/a Autor/a)?
O que em síntese preocupa é relegar a tal simplismo de "inverdade" aquilo que é a "pura verdade".
É como não entender ou atribuir à "inverdade" a Obra de Rembrandt, interpretando "a volta do filho Pródigo" (1669); ou negar a veracidade (realidade) de uma obra abstrato-figurativa de Turner, o "Incêndio da Casa dos Lordes e dos Comuns, 16 de outubro de 1834/35", ou ainda "Iate se aproxima da Costa", também de Turner (1835-40)... É "inverdade" o Magnificat da Virgem Maria, e Aberturas compostas magistralmente por Mestres da Musica, como Schubert, Mozart e tantos mais...
Não, arte não é, e nunca poderá ser, nem de suposição, uma "mentira", nem mesmo aquela "mentira" que Picasso sugere ao artista "retratar para ser vista como verdade" (..."A arte é uma mentira que permite que nos aproximemos da verdade, ao menos da verdade que podemos discernir. 0 artista deve surpreender a maneira de convencer o público da inteira veracidade de suas mentiras"...).
Arte é a pura verdade, é o retrato da vida ao longo dos tempos. É a verdade plástica de revelar a verdade da própria vida.
Para refletir: Uma réplica à “razão”: Quem só vê com a razão, não enxerga o Belo com a emoção.
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